28.9.10

História: um urso que impõe respeito



Um urso que impõe respeito
Por António Torrado Cristina Malaquias

Havia na floresta uma cabana, modesta morada de lenhadores. Nessa cabana, moravam um velhinho e uma velhinha que eram irmãos, mas pouco amigos. Por aqui começa esta história. Desconfio que não estou a dizer a verdade toda. Talvez os dois irmãos fossem amigos, lá muito no fundo dos seus corações de velhos rabugentos, mas quem os visse e ouvisse a enfrenesiarem-se constantemente por dá cá aquela palha, tal não diria. A velhinha, então, era a mais abespinhada. Mal o irmão entrava em casa e fechava a porta, começava a bulha.
- Estou farta de te recomendar, Gregório Epifanov, para não entrares sem primeiro bater à porta. Assustas o gato, assustas-me a mim e abalas a casa com essas botifarras. Porque não te descalças à porta?
- Porque já sei, mana Agripina, que estás à espera que eu venha com o carrego de gravetos para te acender o lume. Se eu tivesse a certeza de vir encontrar a casa aquecida, a sopa a fumegar e o chá a ferver na chaleira, descalçava-me à porta, pois claro! Mas que encontro afinal: cinzas frias na lareira e uma velha a um canto, enrolada em cobertores, a resmungar, com voz de bruxa... A mana Agripina saltava do seu canto e espetava o dedo agudo, diante do nariz do irmão:
- Bruxa? Eu? E tu o que és? Um velho urso paspalhão a sonhar com palácios e criados de nariz no chão. Julgas que sou tua criada, julgas?
- Nem eu sou teu criado e trago-te este baraço de lenha para aqueceres a ceia, velha rezingona. Ela virava-lhe as costas e voltava para o seu canto, resmungando:
- Passo bem sem ceia. Se queres comer o caldo, come-o frio ou aquece tu o lume. Não estou para me maçar com ursos velhos! Assim viviam os dois manos. Assim passavam os serões. De manhã, chovesse ou fizesse sol, havia sempre tempestade na cabana.
- Levanta-te, urso preguiçoso! - gritava a velha Agripina, sacudindo a cama do irmão.
- Deixa-me em paz, velha ruim. Passo dia a trabalhar. Portanto, tenho direito de dormir o que me apetece e o que o meu corpo pede - respondia-lhe o velho, com a cabeça escondida nos cobertores.
- Isso são desculpas de urso. Se te não levantas já, vou ao poço, encho a selha e despejo-ta pela cabeça abaixo - ameaçava a velha. Gregório Epifanov levantava-se, pegava no machado e ia-se embora, sem dar os bons-dias nem comer as sopas da manhã.
Um dia, Gregório Epifanov encontrou o urso da floresta. Não era a primeira vez que urso e lenhador se encontravam. Das outras vezes, empunhando o machado, enfrentara o bicho e obrigara-o a fugir de quem era mais valente. Outros tempos... Agora, Gregório Epifanov sentia-se velho demais para lutar. O machado caiu-lhe das mãos e os joelhos dobraram-se... Rendia-se antes do combate. O urso que decidisse o que queria fazer dele.
- Não quero nada de ti - disse-lhe o urso. - Estás muito fraco para que possas medir forças comigo. Como te deixaste envelhecer desta maneira, homem? Gregório Epifanov murmurou:
- Os anos, uns em cima dos outros, pesam-me nos ombros. A neve de muitos invernos caiu-me na cabeça e embranqueceu-me os cabelos. De tanto mastigar pão duro, caíram-me os dentes. Os trabalhos custosos e as moléstias chuparam-me a carne e curtiram-me a pele. Assim envelheci. Ficaram a conversar como bons amigos. A certa altura, o velho lenhador lamentou-se do mau génio da irmã que não parava de dizer que ele não valia nada e que estava sempre a tratá-lo de urso paspalhão.
- E isso ofende-te? - perguntou-lhe o urso.
Pois claro que se ofendia. Se não fosse ele, a miséria da choupana ainda seria maior. Com o que ele ganhava a vender lenha, ambos comiam. Além de que não era um urso, era um homem. Então o urso teve uma ideia. Chegou o focinho à orelha do lenhador e segredou-lhe o seu plano. Foi uma risota! Na manhã seguinte, repetiu-se a cena de todos os dias. Com os modos de sempre, a velha Agripina abanou a cama, onde, muito enrolado nos cobertores, o irmão dormia.
- Levanta-te, urso madraceiro - gritava ela. - Levanta-te que são horas de te pores a andar. Voltado para a parede, o irmão não dava resposta.
- Ah, sim!? Então deixa estar que hoje é que vais saber como é fria a água do poço - disse a velha. Dito e feito. Encheu a selha, carregou com ela e despejou-a em cima da cama do infeliz Gregório Epifanov, gralhando o que se segue:
- Prova desta água, urso paspalhão, mandrião e resmungão, a ver se te emendas!
Espalharam-se os cobertores e da cama saltou não o lenhador mas um urso, um urso autêntico que se pôs a correr atrás da velha, pela casa fora. Ela, aterrorizada, tropeçou na selha, caiu, levantou-se, fugiu, sentindo sempre as garras do urso quase a tocarem-lhe.
- Quem me acode! - gritava ela que metia pena.
Valeu-lhe o irmão que entrou, nesse instante, na cabana, empunhando um machado. Arremedou-se, ali, uma luta que mais parecia uma dança... O urso fez de conta que estava cheio de medo e, fingindo uma grande aflição, fugiu para a floresta donde viera. A partir desse dia, a velha Agripina passou a tratar o mano com melhores modos. Fora uma ou outra rabugice, os dois irmãos começaram a dar-se muito bem e voltaram a ser bons amigos. As sementes de amizade, escondidas no fundo dos seus corações cansados, estavam a dar flores... Gregório Epifanov nunca mais se esqueceu do urso que lhe prestara tão bons serviços. Sempre que pode, deixa ficar, na cavidade aberta num velho tronco, um boião de mel que se destina ao seu amigo. Parece que os ursos são muito gulosos.

26.9.10

O novo livro de J L Peixoto


“Livro” é o nome da nova obra do escritor José Luís Peixoto. O mais recente trabalho do autor reflecte sobre Portugal nas décadas de 60 e 70 e aborda o tema da emigração.

José Luís Peixoto é filho de pais emigrantes em França, pelo que aborda, no livro, a sua própria vivência. Entre a interioridade de uma aldeia portuguesa e o lado cosmopolita de uma cidade francesa, interessou a Peixoto reflectir sobre a dualidade destes mundos e como isso fez de Portugal um país diferente.

22.9.10

TeaTroTeca: inscrições


Estão abertas as inscrições para a TeaTroTeca (Grupo de Teatro e Biblioteca Escolar). As mesmas podem ser feitas até 24 de Setembro e entregues na "Biblio"/ biblioteca escolar ou aos professores da TeaTroTeca.

Neste ano lectivo, serão, novamente, trabalhados textos que existam na biblioteca. Os ensaios decorrerão à sexta-feira, ao fim da tarde.


Novo ano, os mesmos palcos!

Bibliotecas Escolares reunidas

Ontem, no auditório da DREALG, com a presença do Dr. Eduardo Dias, da Drª Filomena Branco, dos Coordenadores Interconcelhios e dos professores bibliotecários da região, debateram-se as linhas gerais e estratégias para o ano lectivo 2010/2011.
Mais uma vez, as bibliotecas escolares terão um papel fundamental no apoio ao currículo, na promoção e mediação da leitura, nas parcerias e projectos que vão estabelecer e nas actividades e concursos a desenvolver.

100 anos: mensagens...


As mensagens que se seguem, publicadas entre 13 e 20 de Setembro de 2010, são uma breve visão da envolvência do 5 de Outubro de 1910.

Nelas, é possível observar: uma breve cronologia, imagens, o 1º presidente, o 1º governo, a revolta de 1891, um artigo do DN de 5 de outubro de 1910, a revista Ocidente (PDF) de 20 de Outubro de 1910, a simbologia da bandeira, a educação em 1910, movimentos vanguardistas,...


Este blogue tentou ser ardina do centenário. Por alguns momentos...

20.9.10

100 anos: congresso histórico

Já estão a decorrer as inscrições para o Congresso Histórico Internacional I República e Republicanismo, organizado pela Assembleia da República, que decorrerá entre 29 de Setembro e 2 de Outubro de 2010.

Mais informações em
http://www.centenariorepublica.parlamento.pt/congresso_inscr.aspx

19.9.10

100 anos: o que aconteceu entre o 5 de Outubro e Dezembro de 1910


1910-10-05
Proclamação da República. Teófilo Braga preside ao primeiro Governo Provisório.

1910-10-08
Expulsão passagem compulsiva dos seus membros de ordens religiosas à vida secular.


1910-10-08
Extinção da casa militar do rei, dos títulos honoríficos de alguns corpos de tropas e do uso de coroas nos artigos de uniforme.

1910-10-12
Extinção das guardas municipais de Lisboa e Porto e criação provisória, em Lisboa e Porto, da Guarda Republicana.

1910-10-13
Inscrição da palavra "República" nos selos e todas as franquias em circulação.

1910-10-15
Abolição dos títulos nobiliárquicos, distinções honoríficas ou direitos de nobreza e antigas ordens nobiliárquicas.

1910-10-26
Proibição do emprego de menores de dezasseis anos como operários junto de máquinas contínuas de fabrico de papel e de moldar telhas e ladrilhos, calandras e máquinas afins.

1910-11-03
É nomeada uma comissão com o fim de estudar e propor ao Governo um plano geral de reorganização dos estudos.

1910-11-03
Lei do Divórcio

1910-11-05
Primeira greve da República. Ferroviários da linha da Póvoa.

1910-11-12
Lei do inquilinato.

1910-11-18
É lançado ao mar nova embarcação de guerra portuguesa: a canhoteira 'Ibo'.

1910-11-25
Greve dos trabalhadores da Companhia de Gás e Electricidade de Lisboa.

1910-12-01
Festa da Bandeira Nacional.

1910-12-01
Greve dos trabalhadores da Companhia de Gás e Electricidade do Porto.

1910-12-06
Regulação do direito à greve e do lockout.

1910-12-10
Bernardino Machado é investido Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa.

100 anos: a assembleia estabeleceu a bandeira e o hino em 1911


1911-06-19

Estabelecendo a Bandeira e o Hino Nacional.

"(...) A Assembleia Nacional Constituinte decreta:
1.° A Bandeira Nacional é bipartida verticalmente em duas cores fundamentais, verde escuro e escarlate, ficando o verde do lado da tralha. Ao centro, e sobreposto á união das duas cores, terá o escudo das Armas Nacionais, orlado de branco e assentando sobre a esfera armilar manuelina, em amarelo e avivada de negro. As dimensões e mais pormenores de desenho, especialização e decoração da bandeira, são os do parecer da comissão nomeada por decreto de 15 de Outubro de 1910, que serão imediatamente publicados no Diário do Governo.Repetidos vivas á Republica Portuguesa, á Pátria e á Bandeira Nacional (...).
O Sr. Primeiro Secretario faz ondular por sobre a mesa da Presidência a bandeira nacional.
O Sr. Presidente: - Pede novamente silêncio para continuar a leitura.(Lê)
2.° O Hymno Nacional é A Portuguesa.Sala das sessões da Assembleia Nacional Constituinte, em 19 de Junho de 1911.Repercutem por toda a sala vivas à Republica, às nações estrangeiras, a Portugal independente, à Pátria livre.
Prolongados vivas e aplausos.
O Sr. Presidente: - Peço silêncio. Custa-me a pôr ponto a estas manifestações tão patrióticas e tão dignas do acto que acabamos de praticar, mas lembro a todos os Srs. Deputados presentes que, na rua, em numerosíssimo grupo, o povo, o nosso povo, brioso e valente, está à espera de ter a doce comoção de saber que a Republica Portuguesa foi proclamada pela Assembleia Nacional Constituinte.Proponho que a Mesa, acompanhada do Governo Provisório e de todos os Srs. Deputados que quiserem, e suponho que serão todos, se dirijam à varanda do Palácio das Cortes para ler a proclamação da Republica ao povo que ali se acha aglomerado. (Apoiados gerais). (...)
- Viva a pátria livre!- Viva o Povo!- Viva Portugal independente!"

Diário da Assembleia Nacional Constituinte da República, Junta Preparatória, 1ª Sessão, 19 de Junho de 1911, pp. 1;4.

18.9.10

100 anos: a educação em 1910


A educação mereceu especial atenção dos primeiros governos republicanos que tentaram, a todo o custo, resolver o problema do analfabetismo em Portugal. Em 1910, as taxas de analfabetismo rondavam os 71% na totalidade, sendo 81,2% para as mulheres. Para combater rapidamente esta situação, criaram-se escolas móveis que funcionavam nas freguesias onde não existiam escolas fixas. Estas escolas eram frequentadas por crianças, mas também por adultos. O ensino primário foi a área a que a República prestou mais atenção. Assim, a reforma de 1911 criou dois ciclos: o ensino primário elementar, com a duração de três anos; o ensino primário complementar, com a duração de cinco anos, mas manteve apenas a obrigatoriedade para os primeiros três anos de ensino.
A República tornou o ensino laico, isto é, acabou com o ensino da religião na escola. Em substituição da disciplina de Religião e Moral , criou uma nova disciplina, denominada Educação Cívica, com a finalidade de formar cidadãos que defendessem as instituições Republicanas.
Nas escolas eram desenvolvidas actividades que visavam desenvolver nos alunos o amor à Pátria e aos grandes heróis portugueses e o respeito pela bandeira.
Fonte: "História de Portugal", Maria Cândida Proença

100 anos: centenário na biblioteca nacional

Apraz-nos divulgar a exposição "1910 - O Ano da República" que foi inaugurada a 26 de Maio, pelas 18:30, na Biblioteca Nacional de Portugal. A Exposição está patente ao público até dia 23 de Outubro.

A entrada é livre.

Biblioteca Nacional de Portugal
Serviço de Actividades Culturais
Campo Grande, 83
1749-081 Lisboa
Tel. 21 798 20 00 Fax 21 798 21 40

bn@bnportugal.pt

100 anos: artigo do DN de 5 de Outubro de 1910


Artigo do Diário de Notícias de 5 de Outubro, página 2, em que se relata um episódio de última hora!


Fonte: CD interactivo "5 de Outubro 1910- Implantação da República"

17.9.10

100 anos: Arriaga, o 1º Presidente


Manuel de Arriaga (1840-1917)


Manuel José de Arriaga Brum da Silveira nascido na cidade da Horta no Faial, estudou direito na Universidade de Coimbra.

Republicano, Arriaga integrou o primeiro grupo de deputados eleitos pelo Partido Republicano Português (P.R.P.), logo em 1878.

Foi o primeiro Presidente da República portuguesa, cargo que exerceu até à sua renúncia, em 16 de Maio de 1915, na sequência do derrube da ditadura chefiada pelo general Pimenta de Castro.